"Nossa arte", escreveu Kafka certa vez, "é ofuscamento e cegueira perante a verdade: a luz que ilumina o rosto grotescamente distorcido é verdadeira, mas nada mais o é." Tal ambiguidade, característica de nosso século, encontrou em Kafka o único autor capaz de exprimi-la, na ficção tão estranha e tão obsessiva de O Castelo, de O Processo e de numerosos contos e fragmentos. Quando lemos Kafka, custa-nos acreditar que ele tivesse morrido em 1924, tão imersos estamos ainda em sua época. Conforme argumenta Erich Heller neste volume que dá continuidade à série "Mestres da Modernidade", da Cultrix, nunca antes, como na obra do grande escritor tcheco, foi a escuridão absoluta apresentada com tanta claridade e a própria loucura do desespero registrada com tanta compostura e sobriedade. Ao analisar os romances, os contos e as cartas de Kafka, Erich Heller - que é também tchecoslovaco e alcançou reputação internacional como crítico de Kafka e da moderna literatura alemã - oferece-nos aqui uma lúcida e instigante interpretação de um notável escritor cuja imaginação e cuja sensibilidade foram verdadeiramente únicas.